1 de fevereiro de 2018

O quadro do meu avô

O meu avô materno era pintor. Mas não era pintor artístico, era pintor numa fábrica (nem sei bem que tipo de fábrica era, mas acho que incluía pintura de madeiras). Nos tempos livres, uma das coisas que ele adorava fazer era pintar quadros. Quadros grandes.
Numa tarde de sol, no seu terraço, o meu avô recortou uma imagem de um jornal e começou a fazer o esboço numa tela. Quando pegou nas tintas eu aproximei-me e fiquei a observar. Que cores bonitas. Ele estava a pintar o casario velho da Ribeira do Porto. De repente, o vento soprou mais forte, e o recorte do jornal voou. Passou a casa do vizinho e aterrou num terreno vazio e vedado. O meu avô nem sequer tentou alcançá-lo, pois havia uma rede. Mas não se importou, pois disse que pintava como achava melhor. Que não tinha necessariamente que pintar tal e qual a imagem.
Mas eu achei que a imagem era tão bonita que decidi ir resgatar o recorte. Avancei a rede, corri atrás e lá consegui apanhar o papel. No regresso, ao avançar novamente a rede, rasguei a camisola que tinha. Era uma das minhas camisolas preferidas no momento (na realidade era uma sweatshirt da escola onde eu andava, que eu adorava do coração). Entreguei o papel ao meu avô e fui para dentro de casa, triste pelo rasgão na camisola.
Uns dias, ou até talvez semanas, mais tarde, o meu avô ofereceu-me um presente. O quadro do casario da Ribeira do Porto, numa moldura branca toda trabalhada. Tão colorido e bonito. Eu tinha uns 10 / 11 anos. Fiquei contente, mas na altura também me ocorreu "mas onde é que eu vou meter isto?!". A minha mãe pendurou o quadro no meu quarto e, para ser sincera, eu nem dava conta dele a maior parte das vezes.
Uns anos mais tarde, e já depois de o meu avô falecer, o meu quarto sofreu umas pequenas obras e o quadro foi parar a uma arrecadação que os meus pais têm no fundo do quintal. Lá ficou esquecido. As obras do quarto acabaram e eu não me lembrei mais do quadro. 
Quando o reencontrei, já numa fase mais adulta, fiquei despedaçada. As tintas tinham literalmente caído do quadro, provavelmente devido à humidade que ali se fazia sentir. Não restava nada. E desde então, lembro-me muitas vezes daquele quadro, do meu avô e da história do resgate do recorte de jornal (lembro-me da camisola que era branca com uma andorinha azul, lembro-me do meu avô dizer "cuidado, não te magoes" e lembro-me de correr e correr atrás do papel que não parava no mesmo sítio).
Neste momento, o quadro que já não existe ocupa um cantinho do meu coração como nunca ocupou enquanto o tinha, exposto a olhos vistos. Fico muito triste por não ter ficado com aquela recordação do meu avô. Mas por outro lado, será que me iria lembrar tantas vezes do meu avô se ainda tivesse o quadro?!

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